| Revista de Cultura # 9 Fortaleza/ São Paulo, fevereiro de 2001 |
| Portal da Agulha |
| e d i t o r i a l |
| Um
dos pontos nevrálgicos da Internet é que ainda não aprendemos a
utilizar corretamente essa maravilha tecnológica. A violência dos
disseminadores de vírus disputa espaço com o não menos violento balcão
de vendas, ambos ladeados por uma voracidade informativa que contribui
mais para o afastamento do que para a assimilação de um instrumento
novo de informação.
Em meio a tudo isso, há uma tendência natural a generalizar e apressadamente julgar criminoso o SPAM. A todo momento somos atormentados pela informação, havendo um excesso que já não nos dá mais a condição de avaliar sobre seu real valor. Se pensarmos em espaços urbanos invadidos pela propaganda (paredes, roupas, transportes, encartados de jornais, papeletas distribuídas no trânsito, postagem de autocolantes de farmácias e restaurantes etc.), mais a real invasão da privacidade que são as televendas, concluiremos que o SPAM é apenas um modo a mais dessa violência, cuja rejeição em isolado reflete, quando menos, incoerência. A todo momento somos cúmplices desse estado de letargia em que nos encontramos, cujo reflexo é uma já automatizada capacidade de apenas recriminar, jamais detendo-se no motivo da recriminação ou mesmo assumindo o compromisso de reverter o quadro. A rejeição ao SPAM, antes de sua discussão, antes da compreensão de sua raiz, equivalência e efeitos, afirma um estado degradante de uma sociedade que não possui mais convicção alguma acerca de seus valores, e que se deixa manipular por estatutos expressamente vinculados à indústria da propaganda. Não haverá como entender as ações humanas senão correlacionando valor intrínseco e circunstância. Em recente entrevista à Veja Vida Digital (dezembro de 2000), Umberto Eco salienta que "uma boa quantidade de informação é benéfica e o excesso pode ser péssimo, porque não se consegue encará-lo e escolher o que presta". Em muitos casos a rejeição ao SPAM vem justificada pela interferência em nossa privacidade. A invasão de privacidade é pautada pela curiosidade de informação (registros telefônicos, utilização de cartões de crédito, assinaturas de revistas). É preciso compreendê-la como efeito, cuja causa é nossa ansiedade irreflexa. O decantado mundo bem melhor de todas as campanhas também possui valor intrínseco e circunstância. O mesmo se aplica em relação a tudo quanto toma nossas vidas de assalto, ao longo dos dias, quase imperceptivelmente. Esse SPAM por um mundo melhor não nos permite pensar por nós mesmos acerca de suas origens e efeitos. Não resta dúvida de que a Internet seja um instrumento a mais de irradiação de um equívoco. Mas, como todos os demais, pode vir a ser o inverso. Na mesma linha de irreflexão, provedores se manifestam contrários ao SPAM. Sobrevivem através de anúncios, e exigem participações em distintas empresas virtuais, incluindo as revistas de cultura. Praticam-no, sob outra orientação, ao mesmo tempo em que são contra. Anunciam a si mesmos - ferindo assim o Código do Consumidor por eles evocado -, mas proíbem seus filiados de tal recurso. Em outra passagem da sua entrevista, Umberto Eco observa: "Não acredito que a humanidade toda vá usar a rede. Isso vai acabar criando novas formas de divisão de classes." Não se pode pensar nisto como algo surpreendente. Trata-se de uma inclinação natural da espécie humana. O mundo segue dividido entre ricos e pobres. O interessante de se mencionar é que a classe supostamente pensante seja justamente a mais manipulável pelo sistema. Quando serei suficientemente pobre para começar a pensar? Quando serei suficientemente rico para deixar de pensar? Imaginemos um mundo deflagrado por essa conjunção. Tanto SPAM e não saltamos fora da elite! A Internet segue sendo uma igreja com suas restrições sociais (com sua Liga Anti-SPAM eqüivalendo à Liga das Senhoras Católicas dos anos 60). Antes de toda rejeição, a discussão ampla. A Internet tenderá ao usufruto de campanhas políticas no interior do país, como no caso do rádio, ou à disseminação de uma mediocridade risível como no caso da televisão? Agulha propõe aqui um fórum relacionado ao tema: SPAM. Nada de preconceito. Precisamos discuti-lo abertamente. E conclamamos provedores, editores de sites, observadores de plantão etc., para que possamos agir um pouco mais à vontade no tocante ao que fazemos e anunciamos: uma revista de cultura.
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