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Encontro com a sabedoria
mapuche
Leonardo
Boff
Hoje enfrentam-se dois
olhares contraditórios com
referencia à Terra. Um, a vê
como um grande objeto,
destituído de espírito, à
disposição do ser humano que
pode dispôr de seus recursos
como bem entender. Este olhar
permitu o projeto
técnico-científico de conquista
e dominação da Terra, que está
na base do atual aquecimento
global. O outro, a considera
como um super organismo vivo, a
Gaia dos modernos ou a Pacha
Mama dos povos originários
andinos. Ela se auto-regula e
articula todos os seus
componentes de forma que se faz
a permanente produtora e
reprodutora de todo o tipo de
vida.
Este segundo olhar, foi o
dominante na história da
humanidade e foi responsável
pelo equilíbrio que se
estabeleceu entre a satisfação
das necessidades humanas e a
manutenção do capital natural em
sua integridade e vitalidade.
Hoje cresce a consciência de que
o primeiro olhar – da dominação
e devastação – precisa ser
limiitado e superado, pois, do
contrario, pode provocar imenso
desastre no sistema da vida. A
Terra seguramente continuará,
mas talvez sem a nossa presença.
Dai a urgência de revisitar os
portadores do primeiro olhar –
da Terra como Grande Mãe e Casa
Comum- pois eles são portadores
de uma sabedoria que nos falta e
de formas de relação para com a
natureza que nos poderá salvar.
Então nos encontramos com os
povos originários, os indígenas
que, segundo dados da ONU, são
mais de cem milhões no mundo
inteiro, distribuídos em quase
todos os paises, como no extremo
Norte com os sami (esquimós) ou
no extremo Sul, com os mapuche.
Em setembro do corrente ano pude
me entreter longamente com os
mapuche que vivem na Patagônia
argentina e chilena. São muitos,
somente no sul do Chile mais de
quinhentos mil. Vivem nestas
regiões andinas há cerca de 15
mil anos. Resistiram a todas as
conquistas. Quase foram
exterminados, no lado argentino,
pelo feroz general Roca e, no
lado chileno, são muito
discriminados. Aos que hoje
ocupam terras que eram suas, se
aplicam as leis contra os
terroristas da constituição de
Pinochet.
Falando com seus lideres (lonko)
e sábios (machis), logo salta à
vista a extraordinária
cosmologia que elaboraram. Tudo
é pensado em quatro termos.
Segundo C.G. Jung, o número
quatro constitui um dos
arquétipos centrais da
totalidade. Sentem-se tão
vinculados à Terra que se chamam
"mapu-che": seres (che) que são
um com a Terra (mapu). Por isso
se sentem água, pedra, flor,
montanhas, insetos, sol, lua,
todos irmanados entre si.
Aprenderam a descodificar e
comprender o idioma da Mãe Terra
(Ñeku Mapu): o soprar do vento,
o pio do pássaro, o farfalhar
das folhas, o movimentos das
águas e principalmente os
estados do sol e da lua. Em tudo
sabem tirar lições. Seu ideal
maior é viver e alimentar
profunda harmonia com todos os
elementos, com as energias
positivas e negativas e com o
céu e com a terra. Sentem-se os
cuidadores da natureza. A
comunidade sobe ao morro mais
alto. Toda a terra que avista
até se encontrar com o céu, é-lhe
designada para cuidar. Perturbam-se
quando outros não mapuche
penetram estas terras para
introduzir cultivos, pois
entendem que assim se torna mais
difícil cumprir a sua missão de
cuidar.
Desenvolveram sofisticados
métodos de cura. Toda doença
representa uma quebra do
equilíbrio com as energias da
Terra e do universo. A cura
implica reconstituir este
equilíbrio, de sorte que o
enfermo se sinta novamente
inserido no todo. Os mapuche são
orgulhosos de seu conhecimento.
Não aceitam que seja considerado
folclore ou visão ancestral.
Insistem em dizer que é um saber
tão sério e importante como o
nosso científico, apenas
diferente. Na busca de
regeneração da Terra eles podem
nos inspirar.
Gentileza:: lboff
[lboff@leonardoboff.com]
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