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Noé Filimão Massango
 
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Invergonhas de um pai
mandrião
Caía a tarde, célere sobre o
róseo infinito da paisagem
quando vi uma lágrima
desangustiada desprendendo-se
lavrada dum rosto enrugado e
aparentemente grelhado pela
chuva do sol que ardeu o relento
daquela cidade morta, recheada
de insalubridade em cada esquina
de sôfregos amotinados em raças.
Pendeu-me o destino
instantaneamente desarvorado,
revolvi a memória longínqua
retraída a distancia onde
passeara longe daquela
imaginação obstrutiva de
júbilos, e suspirei num jeito
mórbido de subornar a alma para
não esfiar a lágrima como aquela
mãe desajeitada que não suportou
o seu próprio vício.
Uma mãe com um grito delido
roçando-lhe as costas pelos
vistos seu filho preso num fio
de seda que já foi capulana e
pendurado como se fosse uma
mochila num colo decapitado dos
ombros já murchos e a cair
devagar num fogo demolidor de
aços com fumos de maledicência.
Aproximei-me devagar sentindo ao
longe o tremor da terra
escancarando a boca e devorando-lhe
viva desde os pés enterrados
descalços até a alma mais
recôndita no subterfúgio naquele
escasso universo insidiado; e o
hálito da morte desbravando os
sentidos em cada gesto
improfícuo simulado na
perceptível fuga inadiável para
desafogar a imaginação.
Desarrumei o soalho vulgarizado
pela natureza onde o homem não
ousou enterrar a pedra e
sosseguei o corpo desfalcado sem
fogo para não ondear o medo
sobre a dúvida e cristalizei-me.
Entre nós só deduzia-se um
sigilo intransigível mesmo pelo
vento que nos grudava. Sussurrei-lhe
bem alto para não rotular o
silêncio.
- Boa noite senhora
Desmanchou por completo os
lábios, olhou-me impávida como
se fosse uma ignóbil formiga que
se atreve a morte inevitável por
debaixo dum pé ambulante
desprotegida. Descativou uma
lágrima e agravou as valas
macias do rosto quando o caudal
subiu-lhe, alagou-se,
mergulhando-se depois naquele
caqui pegajoso não de lágrimas e
adormeceu. Insinuei-a já com
novos agasalhos de palavras
emotivas e abrandantes para uma
mãe que já sentiu na dor um
grito sangrento entre o delírio
e a morte.
- Boa noite mamã. Levantou-se e
retorquiu
- Mamã eu? Só tenho um filho,
este sem pa...
Não tardou o dilúvio nos olhos,
já imaginava tudo que tinha por
dizer mesmo sem aqueles mares
para libertar toda aquela
angústia que sufocava o peito
daquela mãe improvidente que não
via a claridade do seu suor em
descalabro. Aqui também
divulguei a incontinência da
emoção mesmo com as asas na
mente a desbravarem o silêncio,
solucei.
Verdes,
Verdes são as árvores
desbravadas em silêncio
que tombam a chiar
e tombam entre as matas
densas de vegetação
esquartejadas em raças.
E prontos, o silêncio não era o
alvo almejado enquanto
cativarmos as palavras, nem a
importunação pelo revertimento
sequioso da angústia por um pai
invergonhado, trabalhador a
ganhar um filho mundano. Mesmo
assim reverdecemos estendendo o
dialogo na monção de suspiros eu
aí feito um zarelho pertinaz a
mendigar o pouco da desgraça.
- Mamã que aconteceu?
Regurgitou uma lágrima perene,
último manjar disponível para
desmotivar a fome e replicou:
- Pai dele filho, pai dele...
que nem gostaria que o simulasse
por engano ou ignorância num
gesto igual ao dele se não
evapora daqui e prontos. Evacuou-nos
pior doque estamos com este
filho dele, o filho que ele
mesmo gerou e o nega agora
porque ganha trezentos contos
que não pode dividir com o seu
próprio sangue, para dar a quem?
È filho dele, definhado,
carcomido e sugado pelas
lágrimas da vida na alvura
negando-lhe a paternidade. Será
que fugir é solução? Suspirou
profundamente desterrando
arduamente o ódio e engoliu uma
coisa bem palpável desta vez
aliviando a fome lá no fundo do
vácuo. E a noite ia içando por
um lado a sua brumosa espuma
sobre o universo enquanto o luar
subia invisivelmente entre o
fulvo da textura horrenda
crucificado no azul do céu,
assim juntos cobertos do mesmo
lençol da vida.
- Mamã o que faz para viver?
- Viver? delido assim!
Sobreviver filho, como servo dos
mundanos, empregada da esquina,
uma pobre sorrateira para ganhar
porrada.
- Porrada?
- Sim, porrada! Senão aceito
alargar esta família porrada meu
filho, sem onde queixar é só
cumprir, aliás quem sou eu aqui?
Logo nesta casa infame dos
malfadados e desempregados...
Suplicou penosamente o
cataplasma enquanto uma lágrima
contínua e desagradável na
indignação do seu casamento
escorria as valas que o tempo
insano sulcou naquela mulher
desalentada para drenar a sua
esperança.
É fértil a lágrima sobre os
olhos
florindo verde o silêncio
no desespero duma mãe incorpórea
favos de ossos decompondo-se
sobre a lama fértil da solidão
com um bebé gordo
coladinho na boca
sugando-lhe as gengivas para
sobreviver.
E o filho sereno, espertinou os
olhos articulando os vigamentos
da ponta à ponta e bradou como
se uma lágrima da mãe coçasse-lhe
dolorosamente. Encostou-lhe do
lado esquerdo do peito e com a
mão entre os favos vazios de
alvéolos que já foram mamas
engoliu-lhe a chucha presa entre
os dedos que pelo seu desuso
suplantava a involução. Chupou,
chupou, chupou e adormeceu
enquanto ela também coligia
sonhos para empandeirar
profundamente as lembranças dos
dias lúgubres e indeléveis como
estes e tantos. E não desatremar
nem manchar a esperança adiada
para amanha.
- Chau, visite-nos mais e sempre
que poder... despediu-se ela e
retirou-se ciente que algo
tomara a sua plenitude
desvigorando a marcha dos nossos
consolos e imergiu-se naqueles
andrajos do corpo que ao mesmo
tempo cobre quando dorme
fingindo que não sente nada e
sucumbiu no vento, a necrópole
das desgraças.
Já não podia mais perpetuar a
estadia ali enquanto rubra a
esperança de renovar a presença
dia seguinte. Devastei avenidas
sem fim, errante à busca dum
conhecido meu que tolerasse um
sôfrego a desoras onde o vulgo
taxi não rastejava o asfalto
àquela hora, rogando-lhe um
abrigo por uma noite esfalfante
e inolvidável como aquela.
Terminada a marcha, esgotos de
água arrebentados, tais modernos
rios dos nossos ratos assim como
farrapos e recados velhos como
abrigos incônditos das nossas
crias despistavam-me sem êxito o
acesso àquela porta já matizada.
- Boa noite João
- Oooh! Faz favor, entre; a
quanto tempo!... entre, não
aconteceu alguma coisa pois não,
ahhh... você não mudou, sente-se,
então... E prontos, foi o
reacender das boas lembranças
num reencontro intempestivo onde
pressagiara que velhos amigos
não se esqueceriam em dias como
aqueles. Descabiam-me manjares
àquela hora, aliás quem
suportaria tantas paciências?
Faz favor! E mesmo inconfortável
a dessuetude da esteira numa
fétida e módica sala escura
apertando-me até a própria alma
servida com hombridade por quem
não podia dar mais que aquilo
adormeci mesmo sem aqueles
sonhos habituais. E ao despertar
não esperei o café da manhã,
retornando e seguindo as pegadas
que me levaram àquele sono a fim
de retomar a amarga conversa
suspensa para mais um lote de
esquecimentos. Lá estava ela
despertada e serena como quem
planeia mais uma labuta e quando
se apercebeu da minha presença
desprendeu os lábios e sorriu.
- Bom dia mãe, aqui estou de
novo, ainda se lembra de mim?
- Como não filho, afaste alguma
coisa aí e sente-se. Replicou
desfiando a carapinha
desgrenhada e afastando intrusos
grãos de arreia despregadas que
importunavam a visão limpa
quando retornassem ao solo.
- Mãe, não vai acordar o filho,
parece que já faz sol aí e ainda
mais há pessoas que querem...
- O quê? Acordar? Deixe-o filho,
estatelado nesta rua dos
malfadados e desesperados. Chi,
afinal elas não sabem? Deixe-o,
vogar sobre o leito que merece e
se a morte planea-lo deixo-o
vale a pena onde o sobreviver é
o alento do dia, oque acha que
será dele?
- Pode vir a trabalhar e quem
sabe até vir a ser um homem...
- Não filho, ontófago. Talvez um
homem esbanjado pelas moscas nas
lixeiras à busca duma fatia que
o pai farto trincou, mastigou,
cuspiu e atirou aos pedacinhos
fora só porque não quer que seja
seu filho em casa aquele que ele
mesmo gerou e não quis educar.
Retorquiu com um dedo em riste
espumando o olho esmagado pelo
ódio. E num jeito de quem
apercebera-se de tudo despertou
de olhos embaciados sem o fulgor
das outras manhás, desordenando
os lábios como quem chupa o
orvalho do universo esparso sem
o catecismo dos outros meninos
quando sentem fome.
- Não quer comer o bebé?
- Que bebé? Este que até sabe
afunilar a língua e sorver
pingos de desespero para
sobreviver já que do leite não
vem sortindo a tempo, onde está
o sangue num cataplasma filho?
Ainda mais quem lhe opinou deste
alimento? Que continue filho de
desafectos, de buscas , à sorte
porque eu... Desflorei um
silêncio coagido pensando no
esplendor que raiava nos olhos
futuros daquele menino entregue
à sorte e prontos.
- E agora não vai fazer nada já
que a catadura do seu filho...
- Afogar-me na arreia com um
filho nas costas e dois sacos de
milho na cabeça. Sacos dum
sacana de patrão que não paga se
não uma fatia de pão que os cães
dele chutam para dar este
cãozinho igual e ainda mais
zombada com indizíveis palavras
pungente e dolorosas para um
ambulante e o pai dele
invergonhado numa boa.
- E ele nunca vos procurou assim...
nem nada?
- Oquê? procurar? Só cruzamo-nos
as vezes e vê seu filho
despiciendo na moina e apontando-lhe
por um dedo amputado por um
punhal de vergonhas.
- Acha que ele não sente vexame
nenhum perante esta situação?
- Que vexame! Uma vergonha
imputada a uma urgência
descabida da vida, e nós? Onde
está o crisol de pai? Será que
haverá purgatório das inóspitas
heresias modernas, corações
sujos como estes, invenção
mordaz das palavras cruéis? Onde
está o atrito da vida para parar
o cinismo? E o que é moral
palavra que todos usamos se quem
a diz no momento não se atreve a
dizer onde morra?
- Está bem mãe, parece que o
tempo...
Concluía exânime olhando para o
relógio requestando-me as horas
para mais um dia de tráfego.
- Não, não se preocupe filho, um
dia quando este sobreviver e
crescer, cruzarão as almas e
gestos no mesmo asfalto
disfarçados, seus olhos
catracegos derramando a angústia
e o ódio, sobre as mentes nas
réstias de susto e desespero.
Tristes revertendo gritos e
lamúrias das vozes já
desencaminhadas pelo tempo e
alguém atento e ciente sobre o
viço, levantando-se para dizer:
"aquele é o pai dele", para
todos o verem.
Gentileza:: Noé Filimão Massango
nofima@yahoo.com.br
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